Te liga que não é assim que a banda toca!!!

Eu adoro música. Vejo na música muitas analogias com a vida corporativa. Ou adoro o mundo corporativo e vejo muitas analogias nele com qualquer coisa, até com mergulho… Mas isso é assunto para outro momento.

A verdade é que adoro música. Tenho uma experiência enorme em fundar e afundar várias bandas. Isso é para poucos… Mas curto música, praticamente todos os estilos. Não sou totalmente eclético porque em alguns ainda tenho algumas ressalvas. E é de música, e sobre a música, que gostaria de falar para vocês.

E o mais engraçado, é que o compositor da música que escolhi para escrever, sempre estará no centro das atenções do nosso Brasil – Chico Buarque de Hollanda. Inegável que trata-se de um gênio das letras e melodias, indiferente das suas posições ideológicas e políticas, e gostaria que olhassem o texto sobre esse prisma. Esse músico, poeta ou escritor, contribuiu, e muito, para o nosso Brasil.

Lá na segunda metade do século passado ele escreveu uma música que dizia assim:

“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou,

prá ver a banda passar, cantando coisas de amor.

A minha gente sofrida, despediu-se da dor,

Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor (…)”

Assim começa a música  “A Banda” de Chico Buarque, vencedor do Festival Nacional da Música Popular Brasileira, em 1966, transmitido pela TV Record. Uma melodia alegre e uma letra leve e festiva.

Zuza Homem de Mello (musicólogo que por muito tempo guardou os originais das votações dos Festivais) revelou que “A Banda”, interpretada por Nara Leão, ganhou o Festival por 7 X 5, mas Chico Buarque, percebendo que ganharia, foi até o presidente do comitê dizer que não aceitava a derrota de “Disparada”, de Geraldo Vandré. E, caso isso acontecesse não iria receber o prêmio, e de imediato entregaria o prêmio ao concorrente. Assim, para apaziguar os ânimos foi declarado um empate.

Chico Buarque já era um ídolo nacional, mas com essa atitude ainda ganharia a simpatia daqueles que não gostavam do seu estilo. Gosto é gosto, e não se discute. Não época, em plena ditadura, canções com palavras de ordem, com questionamentos alusivos (e sutis) ao regime militar, eram muito mais acolhidas que as boas músicas do Chico. Mas o fato é que ninguém pode desmerecer a genialidade de alguém que colocou a palavra “paralelepípedo” no meio de um samba. Isso é muita capacidade. Isso é demais. Quase inacreditável.

Uma “banda”, um vencedor, um revés, muitos frustrados e uma aclamação nacional.

Uma banda.

Uma banda traz alegria, traz melodia, traz harmonia.

É difícil ver alguém indiferente ao toque de uma banda.

Quase inimaginável alguém estar num estado letárgico ao ouvir o som de uma banda. Uma banda mexe no mínimo com a batida dos pés no chão, marcando o ritmo.

Os filmes com músicas marcantes, trilhas sonoras vibrantes, cenas emocionantes e emotivas, são utilizadas aos borbotões nas corporações.

Eu mesmo já utilizei “n” vezes esse recurso. Seja para trabalhar melhoria de clima, para buscar modelos para melhorar desempenho, para reflexão, para motivação, para comprometimento, para tirar exemplos… etc.

Uma vez, há muito tempo atrás, um amigo meu foi contratado por uma grande corporação, e no dia que foi apresentado para a equipe de vendas, havia até uma psicóloga (externa) contratada para conduzir o momento. Ele disse que ficou perplexo.

“Será que eu sou tão desagradável que precisariam de uma psicóloga para acalmar as pessoas?” Pensou ele.

Brincadeiras a parte, depois de tudo, ele entendeu o motivo da psicóloga estar presente.

Conta ele, que essa profissional (a psicóloga) foi conduzindo o dia da sua chegada com várias dinâmicas, brincadeiras, com integração, e de uma maneira muito sutil, fazendo com que as pessoas se apresentassem, e se soltassem um pouquinho.

Por último (quase no encerramento) ela colocou uma parte do filme Mudança de Hábito. E naquele momento em Whoopy Goldberg rege o coro do convento com uma pequena orquestra, quase uma banda, tocando e acompanhando-as, não tem quem não se emocione. A música cresce, há o brilho nos olhares dos atores, e a alegria contagiante das freirinhas.

Mas ele conta que ficou meio perturbado. “Aonde ela queria chegar com um filme de freirinhas vovós para uma equipe de vendas?” Indagava-se ele.

Terminado o filme vem o momento de reflexão, ou de processamento como falam os mais entendidos. Várias contribuições significativas, sugestões e ideias. Mas, uma colocação em particular lhe chamou a atenção: uma das colaboradoras mais antigas da turma, sentenciou uma frase que (de acordo com ele) encaixou como uma luva.

Ela disse mais ou menos assim:

“-  É importante que o novo gestor saiba utilizar as pessoas, colocando-as nos lugares onde elas possam render mais. Assim como no filme. Cada um fazendo a sua parte no coro, ou na orquestra.”

No seu primeiro dia na empresa ele já tomava um recado que não deixava brecha para 2º interpretação. “Vai que é sua Taffarel!!!” O que ela esperava dele estava explícito. Ela queria que a equipe de vendas fosse realmente tratada como uma orquestra, ou como uma banda, ou um coral. Afinada.

Na verdade, o som de uma banda, uma orquestra ou um conjunto, será sempre muito mais agradável de se ouvir do que ruídos de latas, de buzinas na rua, de pneus zunindo na estrada e de trens rondando a estação.

Muitas vezes produzimos sons, muitas vezes produzimos músicas e melodias, mas nem sempre produzimos afinação em conjunto ou letras harmônicas com a melodia.

“Disparada” de Geraldo Vandré é uma música bonita, mas a letra é dura, senão vejamos:

“Prepare o seu coração, prás coisas que eu vou contar,

eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão,

eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar.

E posso não lhe agradar.

Aprendi a dizer não.

Ver a morte sem chorar.

A morte, o destino e tudo,

a morte, o destino, e tudo estava fora do lugar.

E eu vivo pra consertar.(…)”

E talvez, por ser uma letra dura, numa época de ditadura, A Banda tenha sido escolhida. Apesar das duas músicas serem realmente muito bonitas.

Acredito que o grande problema de muitas organizações seja o “barulho” produzido por suas bandas, em detrimento do som que poderia produzir acordes mais afinados. Ruídos desafinados, barulhos fora do ritmo, letras que não rimam e não passam muita informação. Realmente acredito que um dos problemas das organizações seja  o ritmo e a desafinação dos cantores e dos maestros. E ainda existem aqueles “que se acham”, aqueles maestros que pensam que vieram ao mundo “prá consertar” as pessoas, os produtos, as estratégias e as organizações, sem um pingo de humildade.

Sons e ruídos qualquer um pode produzir, até uma criança de alguns meses de vida consegue bater num tambor.

Mas fazer música de verdade “são outros quinhentos”.

Executar uma música requer ensaio, requer capacidade técnica e também afinação.

Numa banda, num coral ou numa orquestra as pessoas são posicionadas de acordo com o instrumento (ou naipe) que dominam.

E isso é muito importante. Fundamental. “Cada um no seu quadrado”, diria uma outra canção.

Um guitarrista não é mais importante que o baterista. E o solista não é mais importante do que o baixo ou o contralto. Um flautista não é menos importante que o violinista da orquestra.

Todos são importantes e todos devem estar concentrados, afinados, ensaiados, e principalmente motivados a executar as melodias.

Acredito que era isso que aquela colaboradora queria dizer.

Acho que ela queria dizer que todos que estavam ali, podiam emitir sons e fazer melodias, mas em alguns momentos desafinavam ou tocavam o instrumentos fora do ritmo. Se desafinavam ou tocavam fora do ritmo, talvez fosse por falta de ensaios, ou por falta de concentração, ou por esquecerem as partituras, ou ainda, por falta de regência e maestria. Regência e gerência são similares,troquem os “Gês” e os “Erres” das palavras.

Ainda não sei se esse meu amigo conseguiu “colocar cada pessoa onde ela mais rendia”, mas pelos resultados que ele demonstrou, a “orquestra” dele tocou bem mais afinado e emitiu bons acordes e algumas harmonias bem vibrantes. A equipe dele foi reconhecida como uma das melhores do Brasil, e ele foi promovido algumas vezes.

Muitas vezes os gestores se preocupam com estratégias, com produtos, com preços, e grande parte das vezes, o ponto crucial da organização está na condução das pessoas para os objetivos corretos. A comunicação e o desenvolvimento das equipes leva as organizações a superarem resultados com frequência, e muitas vezes isso é preterido nas estratégias organizacionais.

Como já falei antes, lidar com pessoas é um desafio, mas um desafio dos bons líderes, dos bons gestores. E esse desafio tem que ser superado. Para o bem de todos. São verdadeiros líderes, aqueles que sentem-se desafiados a desenvolver e levar as pessoas a superar suas crenças limitadoras. E essas equipes entregam resultados.