O Monte de Executivos-ditadores (e a imbecilização organizacional)

O que é um executivo-ditador?

É aquele que entende que a melhor maneira de chegar a uma conclusão, é que se faça a sua vontade. Tive oportunidade de trabalhar com um executivo assim. Lembro que íamos para uma reunião com ele para trocarmos ideias, e sempre saímos com ideias novas, as suas. Ou seja, a troca de ideias funciona mais ou menos assim: você entra na sala com a suas ideias e sai com as ideias dele. Isso é o início do processo da imbecilização organizacional – o ato de tornar as pessoas imbecis dentro da empresa.

Quando as empresas passam por um processo de “imbecilização”, a melhor solução é saída dos colaboradores ou a troca do líder.

Esse é o momento mais dramático de uma organização.

Desde de 2014, até agora, meados de 2016, o Brasil vem sofrendo um processo de “imbecilização”, ou seja, um processo no qual acredita-se que as pessoas são imbecis, que não conseguem discernir o certo do errado, o justo do injusto, e principalmente, o que é verdade e o que é mentira. Existem linhas da direita brasileira, querendo a qualquer custo retomar o poder no país, e o controle orçamentário (leia-se aqui verbas lícitas e ilícitas) que ficou na mão de um único partido. E existe a esquerda brasileira, querendo justificar-se com isso, explicando as atrocidades “corruptivas” que cometeram. Ou seja, acham que o cidadão brasileiro é um imbecil, que não consegue perceber o jogo de interesses políticos que há por trás de toda essa mídia e do processo de impeachment do governo (ou desgoverno) atual. Não considero um “golpe” como dizem por aí, mas uma “jogada”, uma “cartada”, que está sendo conduzida por outros “intéresses” (assim mesmo, com acentuação aguda no “e”), como diria o falecido Leonel Brizola. Mas também penso que fazem por merecer a pressão política que estão sofrendo.

Na vida corporativa é mais ou menos assim.

Aliás, é muito, mas muito parecido.

Tive a oportunidade de trabalhar numa empresa regional, que possuía um alto faturamento anual, mas tinha mentalidade familiar. Uma empresa com valor de mercado na casa de alguns bilhões de dólares. Essa empresa tinha um presidente que era “uma mente brilhante” no poder, mas ao mesmo tempo com algumas dificuldades de relacionamento com o principal acionista. Essa “mente brilhante” foi colocada a parte na estrutura e foi chamado um executivo de mercado. Uma pessoa gabaritada, capaz de levar a empresa a alçar novos voos.

Mas infelizmente esse executivo tinha visão muito míope. Não enxergava além do que sua bagagem profissional lhe permitia ver, e sua bagagem profissional limitava-se a apenas uma experiência profissional em sua vida. Limitava-se a apenas uma grande corporação em sua vida. Sua bagagem era tão limitada quanto sua visão. Mas falava bem, vestia-se bem, apresentava-se bem perante os acionistas e colaboradores, e tratava-os como imbecis, contando aquilo que eles gostariam de ouvir e fazendo aquilo que ele acreditava ser o certo. Seria um executivo-ditador?

Quando o presidente, diretor-geral ou CEO de uma organização acredita que possui poder suficiente para tomar suas decisões sem ser questionado, as empresas começam a sofrer o processo de “imbecilização”. É executivo-ditador. Na hora do discurso presidencial a estratégia é essa, a meta é essa, o objetivo para o triênio é esse, mas não na hora da execução as coisas mudam.

Na hora da execução foram promovidos a vice-presidente pessoas com processos por assédio dentro de empresas do mesmo grupo. Foram contratados profissionais do mercado em cargos inferiores ao que assumiram com a justificativa de trazer senioridade para a organização. Foram demitidas pessoas que tinham trânsito e influência junto as colaboradores mais abaixo da pirâmide, e foram distribuídos orçamentos e metas conforme as relações próximos dentro do Staff, sem levar em conta potenciais e capacidades de crescimento do negócio.

A consequência é parecida com os atuais panelaços. Os colaboradores começam a se revoltar com isso, afinal aparecem metas injustificáveis e propostas insalubres de trabalho, e o turn-over aumenta.

O pior, é quando o executivo-ditador, acredita que pode tudo, inclusive seduzir e reter as pessoas, e num rompante de populismo e assistencialismo, incremento o dissídio em 0,5%, aumenta o “ticket alimentação” e troca a assistência médica-odontológica por uma opção melhor. E é assim que ele acredita “comprar” a fidelização dos funcionários e resolver os problemas de insatisfação que apareceram nas pesquisas de clima organizacional.

Não estou dizendo que esses benefícios não são importantes na vida corporativa, afirmo que são sim, apenas estou destacando que somente os benefícios, sem uma linha de trabalho coerente não resolve sozinho problemas de turn-over e de desmotivação de equipe.

Quando um presidente, diretor-geral ou CEO de uma organização acredita que o melhor caminho é aquele que ele já trilhou, e que os processos e procedimentos corretos são aqueles que já estão mapeados em sua mente, é o momento certo de você começar a olhar o mercado para não sofrer o processo de imbecilização. Importante partir para outra, para não deixar de pensar e tentar manter olhos e mentes bem abertas para outras oportunidades e outras possibilidades.

Você deve estar pensando, mas porque o conselho administrativo não demite um profissional desses? Porque, por mais estranho que seja, um executivo qualquer tem um ou dois ciclos (podem ser anos, “quarters”, ou anos fiscais) para fazer seu trabalho a frente de uma organização. E isso, às vezes, é bastante tempo pra uma pessoa fazer bobagens. E, às vezes, pode ser pouco tempo para pessoa entregar os resultados prometidos. Portanto, antes de um ou dois ciclos esse executivo ainda “surfaria” na onda do antigo gestor, o “mente brilhante” que mencionei acima. Algo muito parecido com o que aconteceu no Brasil entre 2000 e 2016…

Por outro lado, ficava pensando se não seria melhor o conselho administrativo assumir a organização e acabar de vez com o executivo-ditador, mas me lembrava que o presidente do conselho era um caudilho, que controlava até mesmo tempo do pessoal no cafezinho e na água. Isso seria mesma coisa que querer a volta da ditadura militar no Brasil. Não era a melhor ideia.

Difícil a saída. Difícil escolher para quem torcer…

Melhor era torcer por uma substituição do executivo-ditador por um outro executivo de mercado.

Um executivo que tivesse uma postura de líder: inspirador, direcionador, coordenador, comunicador e executor. Que dominasse conhecimento de mercado, que tivesse capacidade de articulação, que pudesse resolver problemas com parceiros estratégicos e que tivesse livre trânsito entre todos setores da empresa, desde a unidade fabril até a área de auditoria. Um exemplo de coragem e determinação. Um exemplo de conduta e ética. Um homem dotado de valores. Um homem visionário…

Acho que esperei demais de um simples homem… então resolvi sair da organização.

Hoje fico pensando se a nossa situação política não está assim parecida.

Pena que não podemos sair do país e aumentar o turn-over eleitoral.

Essa opção é muito cara.

Mas não quero sofrer o processo de imbecilização por parte dos políticos brasileiros, desta forma, eu peço demissão do cargo de eleitor até que apareça um líder.

Um cara inspirador, direcionador, comunicador e executor. Dotado de valores. Um exemplo de conduta e ética. Um visionário…

Será pedir demais?

Penso que sim.

Não podemos esperar demais de um ser humano.

Não podemos esperar que nosso líder, gestor, mentor seja um homem perfeito.

Mas podemos esperar que seja impecável… Em conduta, ética e valores. E, se possível, um visionário.