É melhor ser eficiente ou eficaz?

Quantas vezes nos deparamos com essa pergunta?

Ou pior, quantas vezes somos cobrados e questionados por essas duas palavras?

Há quase 20 anos atrás, lá no final do século passado, início dos anos 90 (Kurt Cobain ainda era vivo…), eu começava minha carreira em vendas.

Nesse período um gestor que tive, promoveu um questionamento entre a equipe de vendas. Ele queria que chegássemos a uma conclusão: se era melhor ser eficaz ou eficiente.

Naquela época não tínhamos tantos recursos como agora, e o acesso a informações era bem mais complicado. Atualmente basta uma “googlezada” e recebemos on-line alguma informação. E uma coisa que não fizemos naquela época foi tentar entender o significado das palavras. Aliás, como “bons vendedores” que éramos fomos para o bate-boca, tentar “ganhar no grito”, argumentar e desestabilizar. Mas pesquisar que é bom nada (escrevendo isso me lembrei do método de vendas, A PONTE).

Hoje, mais de 20 anos depois, vou recorrer ao Aurélio on-line para entender os significados das palavras:

“Eficiente: adjetivo. Que dá bons resultados; competente; homem eficiente./Eficaz.//Causa eficiente, na filosofia escolástica, fenômeno bastante para produzir outro.”

“Eficaz: adjetivo. Que produz efeito esperado, que dá resultado: remédio eficaz.//Filosofia. Causa eficaz, causa verdadeira e única de um fenômeno: segundo Malebranche, Deus é a única causa eficaz de tudo o que acontece.//Intensidade eficaz de uma corrente alternada, intensidade da corrente contínua que produziria o mesmo desprendimento de calor no mesmo condutor.”

Olhando assim, “a grosso modo”, eu diria que é muito melhor ser eficiente do que eficaz. “Mataria dois coelhos com uma cajadada só.”  Aliás eu diria que quase que tanto faz, pois é bastante parecido. Afinal quem é eficiente também é considerado eficaz. E de acordo com o Aurélio, o contrário não é verdadeiro.  Vamos ser honestos, o dicionário não ajuda muito.

Bom, voltando ao início da história, nós debatemos por quase duas horas de forma exaustiva, e dificilmente chegaríamos a uma conclusão se não fosse a interferência do nosso líder. Na sua intervenção sábia e muito didática, propôs uma historinha.

A parábola dele era mais ou menos assim:

“Na idade média, em meio aos grandes senhores feudais e reis, vivia um servo que devia muito dinheiro a um desses nobres senhores. Esse servo devia uma quantia impagável, e por causa disso vivia em um regime de “semi-escravidão”.

Embora fosse um nobre muito bom, reconhecido perante a sociedade, uma dívida era uma palavra empenhada. Possuía mais valor do que preço. Tanto para o nobre, quanto para o servo. Isso tudo (quitar a dívida) era uma questão de honra.

Eis que numa celebração de Páscoa, o nobre chamou o servo e propôs um acordo: se o servo lhe desse sua filha, ele consideraria a dívida quitada.

Naquela época os casamentos eram arranjados mesmo, e não se falava muito em amor para casar. Sem contar que existem alguns relatos sobre a tal Jus Primae Noctis, ou Direito do Senhor ou Direito da Pernada, onde era dado o direito do senhor feudal em desvirginar a noiva em plena noite de núpcias.

Diante desses fatos, o pedido do nobre não pareceu tão absurdo aos olhos da sociedade e nem aos olhos da família.

Porém “a compra” da sua filha não caiu bem aos olhos do pai. A filha disse que submeteria ao sacrifício. Mas o pai, ao saber que a filha apaixonara-se por um rapaz do vilarejo, ficou mais constrangido ainda com tudo isso.

Passaram-se alguns dias e o pai nem conseguia mais trabalhar direito.

Pensava na dívida e pensava na filha.

Os irmãos pensavam na herança e a filha pensava no rapaz do vilarejo.

Mas essa filha também pensava na família, e principalmente na mãe que estava doente, e percebendo uma oportunidade de salvar a vida da mãe, foi conversar com seu pai sobre sua decisão. Convencido pela filha, o pai aceitou a ideia do nobre.

Ao receber a noticia do velho servo, sobre o consentimento da sua proposta, o nobre, querendo mostrar-se “mais nobre” ainda, embebido de um altruísmo fora do comum para a época, conversou com a donzela e disse-lhe que lhe concedia qualquer desejo que fosse.

A moça pensou rápido e propôs o seguinte:

Deveriam fazer uma “cerimônia” em público. Num domingo pela manhã.

E a “cerimônia”, seria o ato dele (o nobre) colocar duas pedras (do chão) em uma bolsa de couro, uma branca e outra escura. Pedras comuns na região e que compunham praticamente todo o solo da região. Após isso, ela enfiaria a mão na sacola e retiraria uma pedra e a sorte estaria lançada. A pedra branca daria liberdade nupcial a ela e a pedra preta concederia o casamento. A mão dela decidiria qual seria o fim.

O nobre aceitou o pedido e marcaram o domingo da cerimônia.

Naquele domingo, previamente marcado, todo o povo estava ali reunido, numa excitação só.

Ela de vestido, linda e formosa. Uma virgem maravilhosa.

E ele ali, mais velho, de calças e botas de couro, com um chapéu na cabeça e uma espada na cintura.

Cumprimentaram-se.

O pai entregou sua filha a própria sorte.

O nobre pegou uma sacola de couro marrom, agachou-se e recolheu duas pedras. Duas pedras escuras.

Com exceção da donzela que estava ali ao lado e viu o que aconteceu, ninguém mais percebeu a jogada do velho Senhor Feudal. E ela percebeu que estava em uma situação extremamente delicada.

Como dizer ao povo o que ela viu?

Não podia desmascarar o senhor do seu pai. Eles seriam castigados.

Provavelmente ela seria obrigada a se casar e a dívida ainda continuaria.

Como mostrar ao povo que o nobre estava trapaceando pegando duas pedras pretas e colocando-as na bolsa?

Como agir numa situação dessas?

Como ser eficiente e eficaz?

E o tempo corria.

Como desmentir um homem que propôs o pagamento da dívida com uma aposta com uma mulher?

Questões fatais. Isso era um problema.

Ser eficiente ou ser eficaz?

E o principal, o que fazer?

A palavra de um nobre contra a palavra de uma mulher, filha de um vassalo.

Provavelmente ela iria para a fogueira por querer abalar a imagem do seu senhor.

– Bruxa!!!!

Ela já enxergava as pessoas gritando seu nome e ela indo pra fogueira.

Ela pensou, pensou e agiu.

Colocou a mão na sacola e pegou uma das pedras.

Ao retirar a mão, propositalmente, de uma forma muito estabanada, derrubou a pedra ao chão, deixando-a misturar-se com as outras pedras.

E agora?

O povo gritou:

– Óóóóóóóóóóóó! Num espanto geral.

E agora?

Então ela propôs:

– Que minha sorte seja lançada pela pedra que restou. Se retirei uma cor, a outra que sobrou irá denunciar qual cor que havia retirado.

E assim se fez, a pedra que sobrou era a outra escura.

Dessa forma, por dedução para todas as testemunhas, a pedra que a virgem havia tirado era uma branca.

Alegria geral. Festa na aldeia.

O pai teve a dívida quitada.

Sua mãe teve recursos para se curar.

Ela casou com o jovem rapaz da aldeia.

E viveram felizes para sempre”

Ela foi eficaz, eficiente, e tem mais, ela foi efetiva. Definitiva.

E o que é ser efetivo?

Conforme o mesmo Aurélio, efetivo é “que existe realmente: real, verdadeiro, positivo: capital efetivo./Permanente: funcionário efetivo.”

Então no meu entendimento, efetivo tem muito mais a ver com atitude, com presença, com foco, do que com resultados.

Olhando no google encontra-se uma teoria de Wagner Herrera, onde ele demonstra de uma forma bem simples a diferença entre os três adjetivos:

Eficiência = “fazer certo a “coisa”’;
Eficácia = “fazer a “coisa” certa”;
Efetividade = “fazer a “coisa” que tem que ser feita”;

Avaliando os conceitos acima e a parábola escrita, acredito que realmente a donzela foi eficiente, eficaz e efetiva. Administrativamente falando ela usou o CHA. Conhecimento, habilidade e atitude. Relacionando com a teoria de Wagner Herrera, eficiência, eficácia e efetividade são iguais ao CHA das organizações. Eficiência é o conhecimento. Habilidade é a eficácia. E a efetividade é a atitude que se exige das pessoas.

Mas e nós?

Quantas vezes focamos em fazer de forma correta as coisas?

Seguir os processos e procedimento para executarmos uma ação tem que ser o norte em nossa vida profissional. Quantas vezes queremos atalhos?

E ainda por cima deixamos de fazer certo o que deveríamos fazer? Ou pior, quantas vezes focamos em coisas que não resolvem?

Perdemos tempo trabalhando em coisas que não precisávamos fazer.

E por último, quantas vezes fizemos a coisa certa da forma que tem que ser feita?
É…

Não dá para dizer o que é mais importante, mas dá para dizer que é um trio de palavras que precisam caminhar juntas.